Largar em último em Silverstone já seria um desafio enorme em condições normais. Fazer isso com um carro que não transmitia confiança, enfrentar Fernando Alonso e Carlos Sainz pelo caminho e ainda terminar em sétimo transformou o GP da Inglaterra em uma das corridas mais intensas da minha temporada no F1 26.
Silverstone tem uma característica que poucas pistas conseguem reproduzir.
Você não simplesmente corre ali.
Você precisa confiar no carro.
É um circuito extremamente rápido, com curvas que exigem comprometimento e uma sequência em que qualquer hesitação custa muito tempo. Copse, Maggotts, Becketts e Chapel não perdoam um carro desequilibrado — e muito menos um piloto que não esteja confortável com o equipamento.
E foi exatamente esse o problema que encontrei durante o fim de semana.
Eu não estava confortável.
Desde as primeiras voltas ficou evidente que alguma coisa não encaixava entre mim, o circuito e a Audi.
O carro parecia simplesmente não querer fazer aquilo que eu precisava.
E aquele seria apenas o começo de um fim de semana que terminaria de uma maneira completamente diferente do que eu imaginava.
Silverstone começou como um pesadelo

Quando cheguei para os primeiros treinos, minha expectativa era completamente diferente.
Silverstone é uma pista de que gosto justamente porque permite atacar. É rápida, técnica e possui pontos nos quais você sente realmente o limite de um Fórmula 1.
Mas rapidamente percebi que não teria esse luxo.
A Audi estava difícil de controlar.
Nas freadas, faltava confiança. Eu apertava o pedal esperando determinada reação e simplesmente não sentia o carro respondendo da maneira que precisava. Nas entradas de curva, a dianteira não transmitia precisão. Nas mudanças rápidas de direção, havia aquela sensação desagradável de estar sempre esperando o carro terminar o movimento.
Eu defini o carro durante o fim de semana com uma palavra bastante simples:
capenga.
Talvez não seja o termo mais técnico do automobilismo, mas era exatamente a sensação.
Não era necessariamente um problema isolado. Não dava para apontar apenas para os freios, apenas para a aerodinâmica ou somente para o motor.
Era o conjunto.
E em Silverstone isso fica ainda mais evidente.
Em uma pista lenta, talvez seja possível administrar certas limitações. Você freia um pouco antes, trabalha a saída de curva e tenta compensar.
Em Silverstone, não.
Quando você chega em uma sequência de alta velocidade, precisa saber exatamente o que o carro vai fazer.
Eu não sabia.
O classificatório confirmou nossos problemas

O resultado apareceu naturalmente no cronômetro.
Não tínhamos ritmo.
Tentei extrair aquilo que conseguia da Audi, procurei melhorar referências de frenagem, experimentar maneiras diferentes de atacar as curvas e encontrar algum espaço para tirar alguns décimos.
Mas existe um momento em que você precisa reconhecer a realidade.
O carro simplesmente não estava competitivo.
O resultado foi o pior cenário possível:
última posição no grid.
P20.
Quando você olha para uma corrida de Fórmula 1 começando da última posição, existem duas maneiras de encarar a situação.
A primeira é aceitar que provavelmente será uma corrida de sobrevivência.
A segunda é pensar:
“Bom, agora não tenho absolutamente nada a perder.”
Escolhi a segunda.
A Sprint mostrou que ainda dava para brigar

Antes do Grande Prêmio principal, porém, ainda tínhamos a Sprint.
E ela serviu para confirmar duas coisas.
A primeira era preocupante: realmente estávamos com dificuldades.
A segunda era muito mais interessante: mesmo assim, ainda dava para correr.
Minha largada foi agressiva.
Sabendo das limitações do carro, precisava aproveitar exatamente os momentos em que potência e desempenho aerodinâmico não fossem os únicos fatores determinantes.
A largada era um deles.
Consegui ganhar posições rapidamente e comecei a me colocar novamente dentro da corrida.
Foi então que apareceram disputas contra pilotos como Bearman e Albon.
O problema ficou evidente principalmente quando precisávamos acelerar.
Eu conseguia me aproximar, preparar determinadas situações e até colocar o carro em posição de ataque, mas faltava aquela força final.
A falta de potência da Audi começou a cobrar seu preço.
Em alguns momentos, parecia que eu fazia todo o trabalho necessário durante a curva apenas para ver o adversário abrir novamente alguns metros na reta.
É frustrante.
Especialmente porque, como piloto, você começa automaticamente a tentar compensar.
Freia mais tarde.
Ataca mais a zebra.
Carrega mais velocidade.
Só que existe um limite.
Quando você começa a ultrapassar esse limite constantemente para compensar uma deficiência do equipamento, aumenta também a chance de cometer um erro.
Terminei a Sprint em P12.
Não era o resultado que queria.
Mas aquela corrida me mostrou algo importante para o domingo:
havia oportunidades.
Se conseguíssemos sobreviver aos momentos em que nossa falta de desempenho ficava mais evidente, poderíamos avançar.
A cobrança sobre a Audi
Existe outro elemento importante nessa temporada: o desenvolvimento do carro.
Já estamos esperando atualizações.
E quando você está disputando uma temporada de Fórmula 1 dentro de um modo carreira, isso começa a fazer uma diferença enorme.
No início, pequenas deficiências podem ser administradas.
Só que as outras equipes também evoluem.
Mercedes evolui.
Ferrari evolui.
McLaren evolui.
Aston Martin evolui.
Williams evolui.
Todo mundo começa a encontrar desempenho.
Se suas atualizações demoram para chegar, a diferença aparece na pista.
Foi exatamente essa sensação que tive em Silverstone.
Não era simplesmente uma questão de pilotar melhor.
Precisávamos de carro.
Por isso houve também um certo desabafo durante o fim de semana. A equipe de desenvolvimento precisava entregar.
Eu poderia tentar encontrar décimos em Silverstone.
Não poderia encontrar sozinho os cavalos que estavam faltando no motor.
E essa diferença é importante.
Domingo: P20 e uma missão praticamente impossível

Então chegou a corrida principal.
Eu estava novamente olhando para o grid inteiro à minha frente.
P20.
Silverstone.
Audi com dificuldades.
Era o cenário perfeito para uma corrida terrível.
Curiosamente, também era o cenário perfeito para uma corrida inesquecível.
Minha ideia para a largada era clara: atacar.
Não de maneira irresponsável.
Existe uma diferença enorme entre agressividade e simplesmente jogar o carro em qualquer espaço.
Eu precisava aproveitar o congestionamento natural da primeira volta.
Quando vinte carros chegam praticamente juntos às primeiras curvas, o desempenho absoluto perde um pouco de importância. Surgem linhas diferentes, pilotos precisam defender posições e pequenos espaços aparecem.
E foi aí que comecei a construir minha corrida.
A primeira volta foi provavelmente um dos momentos mais importantes de todo o GP.
Comecei em P20.
Quando percebi, estava em P13.
Sete posições conquistadas praticamente de imediato.
De repente, a corrida havia mudado completamente.
A fome de corrida voltou
Existe uma sensação muito particular quando você começa uma corrida no fundo e percebe que está avançando.
O objetivo muda.
Em P20, você pensa em sobreviver.
Em P17, começa a olhar para quem está na frente.
Em P15, começa a fazer contas.
Quando chega em P13 depois de largar em último, uma coisa acontece:
você começa a acreditar.
Foi exatamente o que aconteceu comigo.
Eu sabia que ainda tínhamos limitações.
O carro não havia magicamente ficado rápido.
Mas agora estávamos dentro da corrida.
E quando estou dentro da corrida, aparece aquilo que costumo chamar de fome de corrida.
Você começa a enxergar possibilidades.
Uma freada um pouco melhor.
Um adversário saindo mal de uma curva.
Uma oportunidade de usar o vácuo.
Uma disputa entre dois carros à frente.
Tudo começa a fazer parte da leitura.
E Silverstone virou uma batalha.
Fernando Alonso aparece no caminho

Entre os adversários daquele domingo estava ninguém menos que Fernando Alonso.
E enfrentar Alonso em uma corrida sempre adiciona algo diferente à disputa.
Não importa apenas a posição.
Existe o peso do nome.
Estamos falando de um bicampeão mundial, um dos pilotos mais experientes do grid e alguém conhecido justamente pela capacidade de disputar posições.
Mas dentro da corrida existe uma regra que considero fundamental:
quando o capacete baixa, o nome do adversário importa menos.
Você precisa correr.
Foi assim que encarei a batalha.
Não queria simplesmente chegar atrás de Alonso e pensar que aquela posição estava definida.
Procurei pressionar, entender onde poderia atacar e principalmente evitar comprometer minha corrida.
Esse último ponto é importante.
Quando você está fazendo uma recuperação saindo de P20, não adianta conquistar uma posição espetacular e destruir os pneus ou danificar o carro no processo.
Era necessário agressividade, mas também inteligência.
E esse equilíbrio marcou praticamente toda a prova.
Sergio Pérez também entrou na história
A corrida continuou apresentando adversários.
Sergio Pérez foi outro nome que apareceu durante minha recuperação.
E novamente a Audi precisava lutar contra carros que, em determinados momentos, tinham desempenho superior.
Essas batalhas tornaram o GP muito mais físico.
Não no sentido literal, obviamente, mas pela quantidade de concentração exigida.
Você está constantemente olhando retrovisores, referências de frenagem, temperatura dos pneus, distância para o carro da frente e possibilidades de ataque.
Um pequeno erro pode destruir dez voltas de trabalho.
E eu não poderia cometer esse erro.
Quanto mais avançava, mais valiosa se tornava cada posição conquistada.
A estratégia começa a entrar em jogo

Chegamos então a uma parte fundamental da corrida:
os pneus.
Decidi estender o primeiro stint utilizando os compostos macios.
Era uma escolha que envolvia risco.
O pneu macio entrega desempenho, mas existe um preço.
Conforme as voltas passam, a degradação começa a mudar completamente o comportamento do carro.
As frenagens ficam mais delicadas.
A tração começa a desaparecer.
As curvas rápidas exigem ainda mais cuidado.
Mas permanecer na pista também poderia abrir oportunidades estratégicas.
E foi exatamente nisso que apostamos.
Enquanto outros pilotos começavam seus ciclos de parada, procurei continuar mantendo um ritmo competitivo sem destruir completamente os pneus.
Era quase uma negociação a cada curva.
Quanto posso atacar aqui?
Quanto preciso preservar?
Vale a pena defender essa posição?
Posso perder meio segundo agora para ganhar dois segundos mais tarde?
Essa é uma das partes de que mais gosto em corridas.
Velocidade é apenas uma parte da história.
Corrida também é leitura.
A parada funcionou
Quando finalmente chegou o momento de entrar nos boxes, precisávamos executar tudo corretamente.
Depois de uma recuperação dessas, uma parada ruim poderia destruir a prova.
Felizmente, funcionou.
Voltamos competitivos.
E naquele momento comecei a perceber que algo grande poderia acontecer.
Não estava mais pensando apenas em sair do fundo do grid.
Estávamos falando de pontos importantes.
Talvez até de um resultado que parecia impossível algumas voltas antes.
Foi quando apareceu o número:
P7.
Depois de largar em vigésimo.
Só que havia um problema.
Carlos Sainz estava chegando.
Sainz transforma as últimas voltas em um pesadelo

As voltas finais foram provavelmente a parte mais tensa de toda a corrida.
Carlos Sainz vinha atrás.
E não estava passeando.
A Williams representava uma ameaça real, e eu sabia que qualquer erro poderia custar a posição.
A partir daquele momento, minha corrida deixou de ser apenas sobre atacar.
Era hora de defender.
E defender uma posição em Silverstone é complicado porque você não pode simplesmente estacionar o carro no meio da pista.
Existem sequências em que uma saída ruim compromete completamente a próxima reta.
Se você exagera na defesa de uma curva, pode entregar a posição duas curvas depois.
Então comecei a trabalhar cada setor.
Precisava acertar a saída.
Precisava controlar a aproximação.
Precisava entender onde Sainz seria mais perigoso.
E, principalmente:
não poderia errar.
Depois de sair de P20, chegar até P7 e passar praticamente a corrida inteira lutando, perder aquela posição nas últimas voltas seria doloroso.
Sainz pressionava.
Eu respondia.
Ele se aproximava.
Eu tentava construir novamente uma pequena margem.
A disputa começou a ganhar aquele caráter que torna o automobilismo tão interessante.
Já não importava apenas quem tinha o carro mais rápido.
Importava quem conseguiria executar melhor cada metro restante da corrida.
Segurar o P7 virou uma vitória particular
Quando finalmente percebi que conseguiria levar o carro até a bandeirada, veio uma sensação difícil de explicar.
Não vencemos a corrida.
Não subimos ao pódio.
Não conquistamos pole position.
Terminamos em sétimo.
Mas contexto importa.
Eu havia largado em P20.
Cruzei a linha em P7.
Foram 13 posições conquistadas.
Em Silverstone.
Com um carro que, durante praticamente todo o fim de semana, considerei abaixo daquilo que precisava para competir.
Por isso, aquele P7 teve um significado diferente.
Foi uma daquelas corridas em que o resultado final não conta toda a história.
Piloto do Dia

A recuperação também rendeu o reconhecimento de Piloto do Dia.
E considero justo dizer que foi uma das atuações mais completas dessa temporada.
Não porque tudo tenha dado certo.
Justamente pelo contrário.
Quase nada começou dando certo.
O carro estava difícil.
O classificatório foi ruim.
Largamos em último.
Faltava potência.
Precisamos administrar pneus.
Enfrentamos Alonso.
Enfrentamos Pérez.
E terminamos segurando Sainz nas últimas voltas.
Não foi uma corrida construída sobre velocidade absoluta.
Foi construída sobre adaptação.
E talvez essa seja a principal história que Silverstone deixou.
Nem sempre você terá o melhor carro
Existe uma tendência natural em jogos de corrida de avaliar uma prova apenas pelo resultado.
Vitória é boa.
Pódio é bom.
P7 parece apenas P7.
Mas depois de tantas corridas no sim racing, aprendi que algumas das melhores histórias aparecem justamente quando você não possui o equipamento necessário para vencer.
Quando o carro é dominante, existe pressão para ganhar.
Quando o carro não é competitivo, surge outro desafio:
até onde você consegue levá-lo?
Silverstone foi exatamente isso.
Eu não poderia transformar aquela Audi na melhor máquina do grid.
Mas poderia tentar extrair absolutamente tudo que ela tinha.
E foi isso que fizemos.
Uma das corridas que definem uma temporada
Temporadas não são construídas apenas pelas vitórias.
São construídas também pelos domingos em que tudo parece estar contra você e, mesmo assim, consegue sair com alguma coisa.
Silverstone poderia facilmente ter terminado sem pontos.
Depois do classificatório, essa talvez fosse até a previsão mais lógica.
Terminamos em sétimo.
E mais importante do que os pontos conquistados foi a maneira como chegamos até eles.
A primeira volta agressiva.
As ultrapassagens.
A estratégia.
As disputas.
A pressão de Sainz.
E aquela sensação constante de estar tentando levar o carro além de onde ele parecia capaz de chegar.
Esse é exatamente o tipo de corrida que me lembra por que gosto tanto de automobilismo e de sim racing.
Não é simplesmente acelerar.
É interpretar aquilo que está acontecendo.
Entender quando atacar.
Saber quando esperar.
Reconhecer quando o carro não pode entregar mais.
E ainda assim procurar alguma coisa.
Mais uma posição.
Mais uma oportunidade.
Mais uma volta perfeita.
De P20 a P7
Quando olho novamente para o resultado, continuo achando impressionante.
P20 → P7.
Treze posições.
Piloto do Dia.
Batalhas com Fernando Alonso, Sergio Pérez e Carlos Sainz.
Tudo isso em Silverstone, uma das pistas mais tradicionais e exigentes do automobilismo mundial.
A Audi ainda precisa evoluir.
Continuo esperando as atualizações.
Continuamos tendo problemas que precisam ser resolvidos se quisermos disputar resultados maiores nesta temporada.
Silverstone não mudou isso.
Mas mostrou outra coisa.
Enquanto o carro novo não chega, enquanto as atualizações não aparecem e enquanto ainda precisarmos lutar contra equipamentos melhores, existe algo que depende exclusivamente de mim:
continuar correndo.
Porque algumas vezes você terá carro para vencer.
Em outras, terá carro para terminar em décimo segundo.
E haverá dias como Silverstone, quando tudo indicará que o resultado será ruim.
É justamente nesses dias que você precisa descobrir até onde consegue chegar.
Na Inglaterra, largamos em último.
Depois de uma das corridas mais intensas da temporada, cruzamos a linha em sétimo.
Não foi uma vitória.
Mas foi uma daquelas corridas que, quando essa temporada terminar, provavelmente ainda vou lembrar.
Porque naquele domingo em Silverstone ficou uma mensagem bastante clara:
podem faltar potência, atualizações e desempenho.
Fome de corrida não faltou.
Assista à corrida completa
Toda essa história aconteceu no episódio “DE ÚLTIMO A P7! BATALHA INSANA COM ALONSO E SAINZ EM SILVERSTONE | F1 26”, no Beccão Racing.
No vídeo completo dá para acompanhar desde as dificuldades com a Audi durante o fim de semana até a recuperação na corrida principal, incluindo as batalhas contra Alonso, Pérez e a pressão de Sainz nas voltas finais.
É uma daquelas provas que representam bem aquilo que busco trazer para o Beccão Racing: não apenas mostrar carros andando rápido, mas contar as histórias que aparecem durante uma corrida.
Porque, no final das contas, é exatamente nisso que acredito:
onde cada curva conta uma história.
